O PASTOR QUE SONHAVA

     "Sonho que, um dia, todo o povo se ponha de pé e viva o verdadeiro significado de sua fé. Sonho que se leve a sério, até o último ponto, a verdade de que todos os seres humanos são iguais... Sonho que, um dia, este país, abrasado pela opressão e injustiça social, se transforme em oásis de liberdade e justiça." Nos Estados Unidos, nos anos 60, este discurso não era comum entre pastores protestantes. Há religiosos que ensinam uma doutrina. Outros vendem a fé como produto comercial. O povo precisa de líderes que sonhem e o chamem para transformar toda a esperança em realidade. Martin Luther King, pastor batista, negro e perseguido, sonhou com um mundo diferente e reuniu multidões na sua campanha pela igualdade racial e humana. No dia 4 de abril, a humanidade recordou seu assassinato e reafirmou a atualidade de sua luta. Já nos anos 50, o pastor King mobilizou sua Igreja Batista e saiu às ruas, gritando: "Quem aceita passivamente o mal, no fundo, está misturado com ele. Quem convive com a injustiça, sem nada fazer para detê-la, está cooperando com ela. Quando o oprimido aceita a opressão, contribui para que ela se prolongue". A sociedade racista fez tudo para impedir sua ação. Inúmeras vezes foi preso, agredido e ameaçado de morte. Mas recebeu apoio de comunidades religiosas e organizações civis. Organizou um grande movimento de desobediência civil contra o racismo. Era uma ação pacífica, sem qualquer violência. Empreendiam greves e boicotes, faziam denúncias e ajudavam as pessoas a crescer na consciência da sua dignidade humana e de seus direitos. Os ônibus de Memphis obrigavam os negros a sentar nos últimos bancos e a levantar-se cada vez que entrava um branco. A população negra deixou de usar os ônibus. As empresas cederam e reconheceram os direitos iguais de todos. Em 1963, Luther King liderou a grande "Marcha dos Viajantes da Liberdade" até Washington. Muitos artistas e escritores brancos apoiavam a ação dos mais de 250 mil participantes que se foram juntando pelo caminho. Um exército da paz conseguiu mudar as leis e garantir, ao menos no plano legal, direitos iguais para todos nas escolas, nas Igrejas e nas ruas. O pastor King recebeu o Prêmio Nobel da Paz e o reconhecimento da humanidade. Em 1968, em meio a um discurso, foi assassinado. Sua luta continuou e ganhou novos adeptos. Até hoje, não se venceu a desumanidade do racismo e da discriminação social, mas, ao menos, o racismo é ilegal e condenado pela maioria das Igrejas e religiões. A estrutura social e econômica do mundo continua etnocêntrica e desumana. A existência de um imenso muro e de um aparato rigorosíssimo de vigilância para separar os Estados Unidos do México revelam mais do que a organização da fronteira, uma política de exclusão social. Os pobres são vistos como novos párias deste mundo, reservado a minorias abastadas. No Brasil, as comemorações oficiais dos 500 anos não disfarçam a arrogância dos colonizadores que dão continuidade à conquista portuguesa e à injustiça deste país com os povos indígenas e as comunidades negras. A atual Campanha da Fraternidade, por um novo milênio sem exclusão e para que todos tenham "Dignidade Humana e Paz", deve muito à herança do pastor Martin Luther King. Ainda hoje, ressoam as suas palavras: "Cedo ou tarde, os povos de todo o mundo terão de descobrir uma forma de convivência pacífica. O ser humano nasceu na barbárie: matar o próximo era normal. Depois, ele foi dotado de consciência. A violência contra outro ser humano deve converter-se em algo tão abominável como devorar a sua carne. A ação não-violenta dos marginalizados pode converter-se em solução para toda a humanidade". Marcelo Barros, OSB

Um abraço, JUPES.

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