«Eu sou a porta. Quem
entrar por mim será salvo; poderá entrar e sair; e encontrará
pastagem. » (Jo 10,9) Para aqueles que escutavam Jesus, a imagem da
porta era familiar: vinha desde o sonho de Jacó e da Jerusalém
das portas antigas, que Deus ama de modo particular. Mas as palavras que Jesus
faz suas, dando-lhes uma nova plenitude de significado, são as do Salmo
118,20: «Esta é a porta de Iahweh: os justos por ela entrarão».
Ele é a porta da salvação, que introduz ás pastagens
onde os bens divinos são livremente oferecidos. Ele é o único
mediador e por meio dele os homens têm acesso ao Pai. «Ele é
a porta do Pai - diz Inácio de Antioquia - através da qual entram
Abraão e Isaac e Jacó e os profetas e os apóstolos e
a Igreja» «Eu sou a porta... » Sim, a imagem da porta devia
penetrar no coração dos judeus que, ao cruzar a porta da Cidade
Santa e a do Templo, tinham a sensação da unidade e da paz,
ao mesmo tempo que os profetas faziam sonhar com uma Jerusalém nova,
de portas abertas a todas as nações. E Jesus se apresenta como
aquele que realiza as promessas divinas e as expectativas de um povo cuja
história está toda assinalada pela aliança com o seu
Deus, jamais revogada. A idéia da porta se assemelha e se explica muito
bem com a outra imagem usada por Jesus: «Eu sou o caminho. Ninguém
vai ao Pai a não ser por mim». Portanto, ele é verdadeiramente
um caminho e uma porta aberta ao Pai, ao próprio Deus. «Eu sou
a porta... » O que significa esta Palavra concretamente na nossa vida?
São muitas as implicações que podemos deduzir de outras
passagens do Evangelho que têm relação com o trecho de
João, mas entre todas vamos escolher a da "porta estreita"
através da qual é necessário se esforçar para
entrar a fim de ter acesso à vida. Por que esta escolha? Porque nos
parece ser aquela que talvez mais nos aproxima da verdade que Jesus disse
sobre si mesmo e que mais nos ilumina sobre como vivê-la. Quando é
que ele se torna a porta escancarada, plenamente aberta à Trindade?
No momento em que, para ele, a porta do céu parece fechar-se, ele se
torna a porta do Céu para todos nós. Jesus abandonado é
a porta através da qual se realiza a relação perfeita
entre Deus e a humanidade: fazendo-se nada, une os filhos ao Pai. E aquele
vazio (o vão da porta) através do qual o homem entra em contato
com Deus e Deus com o homem. Ele é, portanto, ao mesmo tempo a porta
estreita e a porta escancarada, e nós podemos fazer a experiência
disso. «Eu sou a porta... » Jesus no abandono se fez para nós
acesso ao Pai. A sua parte está feita. Mas, para desfrutar de tamanha
graça, também cada um de nós deve fazer a sua pequena
parte, que consiste em aproximar-se daquela porta e em atravessá-la.
Como? Quando a desilusão nos surpreende ou somos feridos por um trauma,
ou por uma desgraça imprevista, ou por uma doença absurda, podemos
sempre nos lembrar da dor de Jesus que personificou todas estas provações,
e muitas outras mais. Sim, ele está presente em tudo aquilo que tem
sabor de dor. Cada dor nossa é um nome seu. Procuremos, então,
reconhecer Jesus em todas as angústias, as aflições da
vida, em todas as escuridões, as tragédias pessoais e dos outros,
os sofrimentos da humanidade que nos rodeia. São ele, porque ele os
tornou seus. Bastará dizer-lhe, com fé: «És tu
Senhor, o meu único bem», bastará fazer algo de concreto
para aliviar os seus sofrimentos nos pobres e nos infelizes, para ultrapassar
a porta, e encontrar depois dela uma alegria jamais experimentada, uma nova
plenitude de vida.
Um abraço, JUPES.